quinta-feira, fevereiro 23, 2006 

cuidar da dose

quero cuidar da dose.
cuidar da dose como ninguém nunca ousou cuidar.
um cuidado ponderado, aliviado
um cuidado interno.
a dose merece atenção especial.
a dose merece cuidado imperativo
em fins de tarde imperativos.
o cuidado que eu presto à dose..
hiperbólico.
hipertenso.
hipertérmico!

fim de dose.

 

doença

quero forçar-te a ser feliz! sempre ambicionei obrigar alguém a isto. será pecado? não se tratará propriamente de uma tarefa saudável. e dói-me que assim seja. afinal também eu sou doente..

terça-feira, fevereiro 21, 2006 

o grau do meu egoísmo

de cheiros não me livro. a colagem é voraz, entranha-se. dói-me aqui e ali e continuo sem saber da plausibilidade.
criei um pequeno espaço dentro de mim para um ser vivo. mais vivo do que eu. mais bonito do que eu. ele mantém a dimensão sugerida como possível. mas o tempo passou. ele não sabe que deveria ambicionar mais, expandir por ele próprio os limites de um buraco doente. não sou eu quem vai colocar o neon na questão.
sou um bicho de hábitos. os que gosto e os que não gosto de estilhaçar. sou dependente e nunca me assumi como o contrário, embora ocasionalmente teatre.
ambiciono quase sempre o que não quero efectivamente ter. ou pura e simplesmente o que a conjuntura não permite que eu tenha. amassado, amolgado, enterrado, espezinhado, abafado, negligenciado, entupido, reprimido, refundido, comprimido, primido só. fica o meu desejo, fica o que sou. fica embrulhado em muitos papéis e sacos e capas, até deixar de ter forma perceptível à vista desarmada. entulha-se tudo no maior fosso possível de abrir para se tapar depois com a maior raiva possível de sustentar.
e assim sobrevive-se. dizem que se sobrevive. veracidade nisto?! não arrisco. não arrisco em nada que não veja efectivado em mim. eu sei.
que eu me engane com força suficiente para matar o mundo inteiro! tal é o grau do meu egoísmo..

segunda-feira, fevereiro 13, 2006 

onde eu nunca soube

onde eu nunca soube. onde eu nunca me tornei gente. onde eu nunca me esqueci de o que sou. onde eu nunca me livrei do ser. de onde eu nunca me livro. e nunca exorcisarei o meu pecado maior aqui. eu não farei nada, nunca por estes ares insalubres.

domingo, fevereiro 12, 2006 

idolatria

propedêutica da minha vida.
ela começa por compor-se do presente modo. pouco tolerada por cerrados, bastante aceite por promíscuos. define-se pela base da indefinição e já perdi a conta às vezes que tentei estruturá-la. mas admito que poucas foram as tentativas verdadeiramente incisivas. fugi-lhe sempre, ou quase, do valor, do princípio, da ética ou da moral. ocasionalmente assustam-me. e igualmente em ocasião persistente, mas fugaz, sente-se. sinto a necesidade do odor destas pequenas grandes aversões. chego a agoniá-las e a idolatrá-las em uníssono. por vezes esbato-as sobriamente, a agonia e a idolatria. casei-me com a inconsciência, mantendo relacionamento adúltero esporádico com a sua rival. penso que nunca gostarei tanto de tal estado matrimonial na minha vida. eu sei que a honrarei e a amarei até à morte. eu aceito-a e assumo-a. faz parte da minha existência como a alma para aqueles que já a conseguiram assinar. teoricamente confusa e praticamente não melhor, eu perdi a mais fina peça do meu pensar. por isso, e já há uns tempos, limitei-me a uma dissertação aparentemente coerente, subtíl e impragnada de doses cavalares de autorepressão. os mecanismos de defesa do meu ego estão completamente fora do contexto da parte de mim que sente. é incompreensão pura. não por falta de vontade dos que por aí circulam. não primo pela expressão limpa.
tentando, e sempre em tentativa, filtrar a informação, geralmente os poros do material que eu escolho e defino como o mais adequado à filtragem, deixam que fugas de matéria considerável aconteçam, o que não faz de mim uma pessoa dotada para a actividade. mas eu insisto. fica bem insistir. principalmente numa coisa que, mesmo sabendo que não vale a pena, nos convencemos de que vale. tem de valer. é necessário que valha. caso contrário o acreditar não fazia sentido. nem no senso comum, quanto mais nos múltiplos esquemas filosóficos e respectivas críticas. a minha exibe roupagem perdida, vagabunda e boémia. muitos pensam que a comprei e arriscam-se em palpites de custo. outros conseguem vê-lo como uma película que, produzida intrinsecamente, brota e reveste o exterior. eu diria que já a possuindo, comprei-a. não consigo aclarar mais a questão. foge do meu entendimento consciente actual. o que há a fazer? continuar a ser isto ou difrente disto. ignoro a essência exacta do meu problema, se é que a questão constitui um válido, plausível problema.
vivo numa sala escura com um interruptor na mão..

 

deleite

o leito é tanto caótico quanto caótica for a mente do deleitado.